Pensar como historiadora: livro resgata o pensamento pioneiro de Hélène Metzger e amplia debates sobre a história das ciências
Publicação da Editora UFG reúne textos inéditos em português de uma das mais influentes historiadoras das ciências do século XX
A Editora UFG lança no mês de julho o livro “Pensar como historiadora”, coletânea de ensaios e conferências da filósofa e historiadora das ciências Hélène Metzger (1889–1944), autora que permaneceu à margem do cânone da historiografia das ciências a despeito do papel decisivo que desempenhou na consolidação deste campo de investigação. Primeiro livro de Metzger em português, a obra organizada pelos professores Hallhane Machado e Tiago Almeida apresenta ao público brasileiro alguns dos aspectos mais centrais do pensamento desta que é uma das mais importantes intelectuais do século XX, reunindo conferências e debates.
Nascida nos arredores de Paris, Metzger participou ativamente da institucionalização da história das ciências na Europa entre as décadas de 1920 e 1940. Historiadora, filósofa e especialista na história da química, integrou organismos internacionais da área, colaborou para a formação de redes de pesquisa e publicou obras que ainda influenciam gerações de estudiosos das mais diversas áreas do saber. De origem judaica, foi capturada pelos nazistas durante a ocupação da França e assassinada em Auschwitz, em 1944.
De acordo com Hallhane Machado, o interesse pela autora surgiu durante suas pesquisas sobre a historiografia francesa e foi reforçado pela tradução que realizou de um texto de Metzger para a Revista de Teoria da História, periódico publicado pela Faculdade de História da UFG, onde atua como professora e pesquisadora. “Pensamos, então, que deveríamos nos ocupar dessa autora tão relevante para o campo, mas proporcionalmente pouco lida. Esse foi o ponto de partida para o livro”, afirmou em entrevista à Editora UFG.
Embora pouco reconhecida no Brasil, o reconhecimento da importância de Metzger não é recente. Autores como Thomas Kuhn e Georges Canguilhem, referências internacionais no campo da filosofia e história das ciências, já apontaram a influência decisiva de suas ideias. Para Tiago Almeida, professor na Faculdade de História da UnB, essa ausência revela mecanismos de exclusão presentes na própria construção da memória disciplinar dos historiadores. De acordo com o pesquisador, “Metzger, que nunca obteve um posto universitário permanente, foi excluída da ‘memória disciplinar’, por mais destacadas que tenham sido a sua atuação e a sua produção historiográfica”.
Uma pensadora que defendia o olhar historiográfico sobre a ciência
O título da coletânea faz referência a uma das teses mais contundentes defendidas pela filósofa em seus trabalhos: a defesa de que a história das ciências deveria ser praticada com métodos próprios da historiografia. Conforme destaca Halhane Machado, “Metzger nunca deixou de reconhecer a importância da história das ciências para a produção e para a transmissão do conhecimento científico, nem a necessidade de diálogo com a filosofia da ciência, muito pelo contrário, porém, ainda que a história das ciências pudesse ser escrita por cientistas e filósofos, para atender aos interesses específicos da ciência e da filosofia, Metzger defendia que o bom historiador das ciências era aquele que conseguia “pensar como historiador”, ou seja, aquele que conseguia empregar, para o estudo das ciências do passado, os métodos de pesquisa utilizados pelos historiadores profissionais”.
Gênero, reconhecimento e memória acadêmica
O alcance das contribuições e a trajetória de Hélène Metzger colocam em jogo um importante debate que há algumas décadas vem se impondo e se tornando cada vez mais relevante: os obstáculos enfrentados por mulheres no ambiente acadêmico. No início do século XX, mesmo impedida de seguir determinados percursos educacionais e afastada de posições universitárias permanentes, e com a carreira marcada por limitações institucionais, Metzger, assim como Marie Curie na mesma época, foi capaz de impor seu trabalho que, desde o início, revelou-se incontornável.
Os organizadores ressaltam, contudo, que a autora não deve ser lembrada apenas pelas barreiras que enfrentou e soube superar. A coletânea procura evidenciar também o prestígio que conquistou entre importantes intelectuais de sua época. Figuras como Lucien Febvre, Alexandre Koyré, Johan Huizinga e Henri Sigerist participaram de debates sobre suas conferências e reconheceram a importância decisiva de suas pesquisas, a originalidade de sua reflexão e a grandeza de sua obra
Nesse sentido, a publicação propõe uma reflexão mais ampla sobre os critérios que definem quais autores são incorporados às narrativas oficiais da historiografia. Ao recuperar uma pensadora frequentemente esquecida, o livro convida leitores e pesquisadores a revisitar os processos de construção da memória acadêmica e dos próprios cânones disciplinares.
Tradução inédita e compromisso com a difusão do conhecimento
A organização da obra envolveu desafios significativos. Grande parte dos textos reunidos corresponde a conferências e debates públicos, preservando marcas de oralidade, intervenções espontâneas e discussões intelectuais da época. Além disso, os organizadores precisaram lidar com conceitos científicos históricos que já não fazem parte do vocabulário contemporâneo, exigindo ampla pesquisa contextual para garantir a fidelidade das traduções.
Para Hallhane Machado, a publicação também reforça o papel central das editoras universitárias na circulação do conhecimento científico. De acordo com a pesquisadora, instituições públicas têm a responsabilidade de promover obras relevantes para a formação intelectual e para o fortalecimento do debate acadêmico, conciliando rigor editorial e compromisso com os leitores.
Ao disponibilizar em português estes textos fundamentais de Hélène Metzger, a Editora UFG reafirma seu compromisso com a pesquisa produzida na Universidade e sua vocação para a divulgação do conhecimento. Além disso, ao também contribuir para a reflexão acerca de questões sociais candentes, a editora desconstrói a ideia retrógrada de segmentação, que compromete a possibilidade de um debate mais consistente, ampliando assim o horizonte de reflexão. A publicação deste “Pensar como historiadora”, portanto, indica quão vivo e pujante permanece a atividade acadêmica em nosso país.
Fonte: PRPG UFG
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