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Escrever o sertão, defender a terra: o mundo vivo de Carmo Bernardes

Editora UFG lança em novembro as Obras Completas do escritor, vanguardista na defesa do Cerrado e premiado internacionalmente

Desfeitar o próprio povo não tem cabimento! Nem mesmo quando a lei “fizer proibição”. Para o velho Godenço, receber mal alguém em seu lar é uma afronta que não se negocia. Ele “prefere sofrer qualquer consequência a tratar mal uma criatura em sua casa”. Recusar-se a vender fiado também não é visto com bons olhos: é um sistema duro, de gente mau-caráter, como Crimone.

Godenço e Crimone são personagens de contos de Carmo Bernardes (1915-1996). Nas histórias em que aparecem, a hospitalidade, a lealdade e o compromisso com os seus se impõem como regras concretas de convivência, não meras abstrações. Mais do que apresentar homens e mulheres do sertão, Carmo consegue, como poucos, transportar o leitor para um universo de hábitos e costumes. Cada figura carrega uma maneira particular de interpretar o mundo, e cada gesto revela conflitos, relações de pertencimento e diferentes formas de compreender a vida.

Mas não é só por meio da ficção que Carmo fala. Jornalista, prosador, memorialista, defensor do meio ambiente e da justiça social, o escritor atravessou diferentes territórios sem se aprisionar em nenhum deles. Escreveu sobre o Cerrado, os habitantes do sertão e as mudanças da vida moderna, combinando memória, observação e uma impressionante elaboração literária.

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Créditos: acervo pessoal de Ana do Carmo (filha do autor). 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É essa produção, depois de décadas fora de catálogo, que a Editora UFG começa a devolver aos leitores com a publicação das Obras Completas do autor. A coleção terá 20 volumes e será inaugurada, em 25 de novembro, com os lançamentos de Vida Mundo, livro de estreia de Carmo; Jângala – o Complexo Araguaia; e A ressurreição do caçador de gatos, obra que o projetou internacionalmente.

Uma vida entre a roça e a palavra

Nascido em Patos de Minas (MG), em 1915, e criado em Goiás desde os cinco anos, Carmo viveu na roça até os 30. Foi trabalhador rural e carpinteiro antes de se tornar jornalista e escritor. Apesar da origem simples, a literatura chegou cedo à sua vida. Sua mãe, Dona Sinhana, era uma leitora assídua e transmitiu ao filho o gosto pelos livros.

Essa trajetória, que mistura a experiência na roça e a proximidade com o mundo das letras, marca profundamente a perspectiva de sua escrita sobre o mundo sertanejo. Para Carmo, o sertão não era um objeto observado de fora, mas um conhecimento incorporado à sua trajetória. Já na apresentação de seu livro de estreia, Vida Mundo, publicado em 1966, ele escreve:

“Embirrei e não renunciei, nem mesmo a poder de palmatórias, o repertório oral que dona Sinhana me ensinou [...] Quando é preciso, tempero a língua no falar oficial, mas, particularmente, só falo e conto meus casos conforme a velha me ensinou. Sou filho da brabeza, é bobagem eu querer negar minha raça”.

A oralidade é, portanto, força marcante de seus livros, como ressalta o escritor Edival Lourenço: “é como se a história estivesse sendo contada diante do leitor”. Essa impressão, no entanto, não deve ser confundida com espontaneidade, afirma Lourenço. Em seus escritos, há um trabalho cuidadoso de construção.

Marlon Salomon, um dos curadores da coleção, também chama atenção para esse aspecto pouco destacado de sua obra. Carmo era “muito meticuloso, muito preocupado pela busca da palavra e da frase corretas”. Para Salomon, o autor foi um inventor, dono de “um trabalho estético bastante complexo” que, justamente por ser bem realizado, muitas vezes produz a sensação de naturalidade.

Esse rigor na elaboração da linguagem lhe permite dar nome e complexidade a pessoas que, muitas vezes, aparecem apenas como problema social. Sem idealizar a vida rural, Carmo se recusa a aceitá-la como sinônimo de atraso. Seus personagens são homens e mulheres que trabalham, enfrentam a pobreza e lidam com a violência dos poderosos, ao mesmo tempo em que constroem estratégias de sobrevivência e interpretam as transformações ao redor.

Quando a natureza também fala

Os animais, os rios e as árvores também não aparecem como elementos secundários no universo criado por Carmo Bernardes. Em seus livros, “a natureza canta, geme e suspira, faz tristeza e alegria”. Mais do que cenário, o Cerrado participa da narrativa e está intrinsecamente ligado à memória, ao trabalho e à linguagem de seu povo.

Para o geógrafo Fernando Henrique Ferreira Cardoso, ao descrever o sertão goiano “de modo tão acurado, sensível, meticuloso”, Carmo preenche o Cerrado de historicidade e memória. Cardoso explica que essa abordagem era pouco recorrente nos discursos da época, que apresentavam o ecossistema por um viés desenvolvimentista, associado a uma ideia violenta de progresso e à noção de decadência e atraso atribuída ao sertão.

A relação de Carmo com o ambiente ultrapassa, portanto, a elaboração literária. Ele se reconhecia como protagonista na defesa do Cerrado e construiu uma escrita atenta às relações entre território e comunidade. Em Jângala – o Complexo Araguaia, que será relançado em 25 de novembro, o escritor descreve como o ciclo das águas organiza os deslocamentos, a alimentação e a ocupação do território pelo povo Karajá. “Sua montaria é a ubá, os rios são a estrada”, escreve.

Para o cientista ambiental Pedro Novaes, essa perspectiva foi altamente vanguardista. Antes mesmo que o socioambientalismo entrasse em voga, Carmo já havia compreendido a conexão profunda entre o ambiente e os modos de vida comunitários. 

Assim, ao unir uma escrita poética e pessoal a um saber profundo do Cerrado, Carmo constrói uma crítica consistente aos projetos que ameaçavam o equilíbrio da região e tinha razão ao reivindicar para si um papel central nessa defesa.

Um lugar no cânone brasileiro

Por ter o Cerrado, o sertão goiano e seus habitantes como elementos constitutivos de sua literatura, Carmo costuma ser classificado como autor regionalista. Para Márcia Pereira dos Santos, no entanto, essa categorização oculta o universalismo da obra do escritor, que tratou de questões que ultrapassam qualquer fronteira.

A autora argumenta que o particular, em Carmo, não reduz o alcance de sua literatura, porque é justamente a partir de um lugar concreto que o escritor alcança problemas mais amplos. “A aldeia universal de Bernardes é cada casinha de roça lembrada, habitada por homens e mulheres perdidos na imensidão do que era sertão em suas lembranças”, afirma.

Para Pedro Novaes, a dificuldade de reconhecer Carmo como um autor de alcance nacional revela, na verdade, um problema antigo da literatura brasileira, marcado pela concentração do olhar no eixo Rio-São Paulo e pelo preconceito historicamente dirigido à produção cultural do restante do país. 

Esse desequilíbrio ajuda a explicar por que o autor ainda não ocupa o lugar que lhe cabe no cânone brasileiro, apesar das diversas formas de reconhecimento que acumulou ao longo de sua trajetória. Elogiado por Jorge Amado e membro da Academia Goiana de Letras, Carmo teve seu romance Jurubatuba (1972) consagrado como uma obra fundamental da literatura produzida em Goiás e reeditado poucos anos depois.

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Créditos: acervo pessoal de Ana do Carmo (filha do autor). 

 

Marlon Salomon, por sua vez, considera Carmo “um dos grandes prosadores da segunda metade do século XX”. Para ele, a comparação recorrente com Guimarães Rosa não é exagerada, pois os dois ajudaram a transformar a maneira como a literatura brasileira representa o mundo rural e o sertão.

Seu reconhecimento também ultrapassou as fronteiras do país: A ressurreição do caçador de gatos recebeu o prêmio da Casa de las Américas, em 1991. Publicado primeiro em espanhol e depois em português, o livro é um dos primeiros títulos dessa nova edição.

Agora, a publicação das Obras Completas de Carmo também cria a oportunidade de rever o lugar atribuído ao autor. Não se trata apenas de tornar novamente disponíveis livros esgotados, mas de permitir que sua produção seja lida em conjunto, em sua variedade e em seu desenvolvimento.

Uma obra para o presente

Ao reunir 18 livros já publicados e dois inéditos, a coleção preserva as decisões do próprio autor sobre a organização de seus volumes, seus retornos a determinados textos e o modo como construiu, ao longo do tempo, uma obra em movimento.

Assim, a publicação interessa tanto a quem já conhece Carmo Bernardes quanto a leitores que terão agora o primeiro contato com sua escrita. A coleção permitirá novas leituras sobre a formação da literatura brasileira, a vida rural, a questão ambiental e as relações entre experiência, memória, política e linguagem.

Para Ana do Carmo, filha do escritor, a publicação das Obras Completas representa uma espécie de continuidade para o trabalho do pai. Segundo ela, a coleção ajuda a preservar o sentido social de seus escritos e mantém essa trajetória em circulação: “Tudo que ele fez, que ele transcreveu, foi em prol do social. Agora [a publicação] o imortaliza por muito mais tempo. Isso que é importante”, resume.

 

Aline Fernandes Carrijo

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