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Editora UFG relança livro que destaca a atualidade do pensamento social de Lima Barreto

Em nova edição, Maria Cristina Machado revisita a obra do escritor para revelar sua força como pensador social da Primeira República

As tensões que atravessam a sociedade brasileira há mais de um século são o ponto de partida de “Lima Barreto: um pensador social na Primeira República”, fruto da tese de doutorado da socióloga e pesquisadora das relações entre literatura e sociedade, Maria Cristina Machado, que ganha nova edição pela Editora UFG. A obra apresenta o escritor carioca como um observador privilegiado das desigualdades, dos processos de exclusão e das promessas não cumpridas da República, questões que permanecem atuais no Brasil contemporâneo. 

A obra nasceu de uma leitura ampla e cuidadosa da produção barretiana. Para a autora, compreender Lima Barreto como pensador social exige acompanhar, passo a passo, a maneira como ele observou a dinâmica social de sua época. O escritor, explicou Maria Cristina, “se debruçou sobre temas fundamentais à compreensão da dinâmica social de seu tempo, a partir da cidade do Rio de Janeiro e de sua inserção social nesse universo urbano em transformação”.

Esse olhar para a cidade, para os subúrbios e para os sujeitos marginalizados constitui um dos eixos centrais do livro. Na análise da pesquisadora, Lima Barreto captou as tensões da Primeira República em um momento de intensas transformações econômicas, políticas, sociais e culturais. De acordo com Maria Cristina Machado, “as contradições da modernidade brasileira foram captadas por Lima Barreto, na medida em que sua obra revela anseios e tensões presentes no país por ocasião da implantação da República”.

Um intérprete das contradições brasileiras 

Temas como racismo, desigualdade social, violência institucional, misoginia e exclusão não aparecem na obra de Lima Barreto como elementos secundários. Para a socióloga, eles formam o próprio núcleo de sua escrita. “Sua obra é comovente, justamente por ser um ‘grito’ contra uma sociedade que exclui a ele e seus pares das relações de poder, da riqueza social, do mundo da cultura”, enfatizou a autora.

Ao articular literatura, sociologia, história e crítica cultural, o livro mostra como a força da obra barretiana está justamente em sua capacidade de transformar experiência social em representação literária. Maria Cristina Machado define Lima Barreto como um “literato marginal”, marcado por uma “tripla marginalidade, racial, social e literária”. Uma das imagens da interpretação proposta pela autora é a de Lima Barreto como um flâneur com “pés de chumbo”. 

Diferentemente do flâneur parisiense associado à modernidade europeia, o escritor brasileiro não circula pela cidade embalado por promessas de progresso e igualdade. “Ele vê na modernidade brasileira a reprodução de uma realidade desigual, excludente, autoritária e patrimonialista”, explicou a pesquisadora. Para ela, basta observar o noticiário para perceber a atualidade desse diagnóstico.

O flâneur de pés de chumbo 

Personagens como Isaías Caminha e Clara dos Anjos revelam, segundo Maria Cristina, a condição de marginalidade que atravessa a vida e a obra de Lima Barreto. Entre os personagens que mais marcaram sua leitura, ela destacou Gonzaga de Sá, cujas caminhadas pela cidade ao lado de Augusto Machado foram fundamentais para a construção da imagem do flâneur com “pés de chumbo”. 

Ainda assim, a pesquisadora ressalta que toda a obra de Lima Barreto é atravessada por uma humanidade sofrida e comovente, uma vez que, nas palavras dela “nos emocionamos com a discriminação de Isaías, com o otimismo ingênuo de Policarpo Quaresma, com as reflexões de Gonzaga de Sá, com as frustrações de Clara dos Anjos”.

Um autor para compreender o Brasil contemporâneo 

A permanência do interesse por Lima Barreto, avaliou a pesquisadora, está diretamente ligada à força contemporânea de sua obra. Em um momento em que debates sobre racismo, misoginia, segregação social, violência estrutural e justiça social ocupam o centro da vida pública, o escritor se apresenta como uma fonte privilegiada de reflexão. Sua literatura, segundo Maria Cristina Machado, pode ser compreendida como forma de resistência e denúncia social “na medida em que revela a origem de nossas mais profundas chagas sociais”.

Ao relançar o livro, a Editora UFG recoloca em circulação uma obra importante para quem busca compreender o Brasil em suas dimensões histórica, material, simbólica e cultural. Para Maria Cristina Machado, Lima Barreto oferece ao leitor uma espécie de jornada de autoconhecimento nacional. Ao comentar suas expectativas para a nova edição, a autora destacou o potencial da obra para ampliar a compreensão sobre a sociedade brasileira: “Espero que os leitores conheçam mais e melhor o Brasil em sua realidade sociocultural, em suas contradições e em seus desafios. Lima Barreto é um excelente, comovente e inestimável guia.”

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Source: Editora UFG

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